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20 de Setembro de 2019

A adultificação infantil na sociedade

Janaina Bevilacqua, Advogado
Publicado por Janaina Bevilacqua
ano passado

A ADULTIFICAÇÃO INFANTIIL NA SOCIEDADE

JANAINA GRAZIELLI BEVILACQUA

RESUMO

A intenção deste estudo é fazer uma análise da sociedade acerca da adultificação infantil, que impõe a crianças (com doze anos incompletos) obrigações, metas, sentimentos e postura de um adulto, que possui dentre uma das consequências o stress, angústia e inúmeros outros sofrimentos, como a dificuldade de lidar com frustrações e perdas, pois é educado para obter desde sempre o melhor desempenho, cuja exigência não condiz com seu desenvolvimento psíquico e cognitivo. Realizou-se pesquisa bibliográfica considerando a contribuição de autores como Neil Postman, Ingrid Dittrich Wiggers entre outros, procurando enfatizar a postura da sociedade, favorável a adultificação.

Palavras-chave: Adultificação infantil, Criança, Sofrimento prematuro. Infantil, Sociedade.

Introdução

O presente estudo busca analisar a adultificação infantil na sociedade, que gradativamente extirpa as diferenças entre uma criança e um adulto, em virtude da transferência de objetivos, metas e obrigações de forma prematura ao infante.

Verifica-se que a cada dia aumenta-se a tabela de exigências e imposições por melhores resultados, sempre em busca do melhor desempenho e eficiência, aproveitando o tempo da forma mais rentável possível, o que seria comum se tratássemos da condição de um adulto e não de uma criança de até 12 anos incompletos, conforme definição jurídica.

Nesta perspectiva, construíram-se questões que nortearam este trabalho, quais sejam:

* A mídia influencia a adultificação infantil?

* A sobrecarga de obrigações e deveres imposta as crianças impede o gozo da infância?

* Quais os possíveis reflexos da cobrança exacerbada pelo menor desempenho às crianças?

Atualmente as jornadas de trabalho se estendem além das 08 horas diárias, seja em busca do famigerado cumprimento da meta mensal ou para atender os anseios da empresa pelo crescente desempenho profissional,

E esta perquirição tem como ônus o distanciamento familiar, com consequência direta na ocupação dos filhos, que se equipara a dos pais, sempre com agendas lotadas, inúmeros compromissos e uma mochila carregada de materiais suficientes para cumprir os afazeres do dia.

Assim como os genitores possuem uma jornada extenuante e laboram sob tabelas e gráficos que apontam quais as expectativas do seu superior ou gerentes, em busca do resultado ideal para o mercado de atuação, os filhos também tem absorvido tal postura, em regra estudando o ensino regular e além disso, fazendo reforço para ultrapassar a nota média bimestral, pois sempre é bom saber mais, fazendo inglês aos 8 anos, para se preparar para o futuro, ensaiando balé, para aprender a comportar-se com classe, fazendo natação, haja vista lhe fará muito bem a saúde, esquecendo-se tão somente de viver como criança.

As exigências da sociedade atual forçam a criança a lidar com derrotas, vitórias e frustrações, que sinalizam claramente a transferência dos anseios paternos sob a justificativa de que tudo está sendo realizado em prol da felicidade da criança, mas não correspondem com o desenvolvimento mental e psíquico.

Desenvolvimento

Atualmente é visível que as crianças estão sendo submetidas ao cumprimento de deveres e obrigações que não correspondem com seu estágio de desenvolvimento, seja para alcançar as melhores notas, estudar e desempenhar de forma exemplar outras 3 ou 4 atividades no dia, pela expectativa do corpo perfeito quando chegar a idade adulta, apontando o desaparecimento da infância ou adultificação infantil.

A Revista Brasileira de Ciências e Esportes, no estudo de sobre “A infância na era das mídias. Corporeidade em foco”, aponta que o comportamento, linguagem, atitudes e desejos de adultos e crianças se tornam cada vez mais indistinguíveis, conforma abaixo transcrito:

“Acredita-se, por um lado, que as crianças de nossos dias estejam sendo submetidas a uma antecipação da “expectativa de corpo ideal”, provocada sobretudo pela mídia (WIGGERS, 2008). Em outras palavras, as crianças passariam por um processo de adultificação, visível desde a sua aparência física até a expressão corporal. Postmann (1999, p. 18) propõe a tese do “desaparecimento da infância”: “Para onde quer que a gente olhe, é visível que o comportamento, a linguagem, as atitudes e os desejos – mesmo a aparência física – de adultos e crianças se tornam cada vez mais indistinguíveis”. A mídia contribuiria, sob essa perspectiva, para uma

alienação do sujeito, inibindo sua capacidade de reflexão crítica sobre a realidade (ADORNO; HORKHEIMER, 1985)”.

A alteração do comportamento infantil aponta que as crianças estão sendo submetidas a um processo de adultificação, com antecipação de atividades, desenvolvimento e sentimentos, tendo a mídia como forte contribuinte.

Além da mídia é interessante incluir que o hábito consumista atual, na sagacidade típica de alcançar novos consumidores, passou a atingir o público infantil, mas que vai muito além da compra do produto, envolve a capacidade de discernimento dos pequenos no desenvolvimento das propagandas, que apontam que a criança “sabe que precisa disso”, “seu recreio é muito mais feliz com este produto” ou “você precisa deste tênis”, aduzindo que possuiria a perspicácia em decidir sobre o que precisa ou não.

Para as empresas, atingir o gosto infantil, certamente garante alguns dígitos a mais em seu faturamento, mas para a sociedade, como um todo, é um claro prejuízo, pois a cada dia mais crianças perdem sua essência e inocência e não há qualquer previsão de que desvios sofrerão ao se tornarem adultos.

Pode-se utilizar de exemplo o programa Masterchef Júnior, com a primeira temporada exibida pela emissora Band, que contava com crianças e adolescentes, de 09 a 13 anos, suando entre as panelas, sofrendo com o alto nível de stress e algumas crises de choro em busca perfeição na apresentação de uma torre de profiteroles ou um prato com frutos do mar, ou seja, tipo de atividade totalmente incongruente com seu estágio de desenvolvimento.

E o sofrimento adultificado da criança foi aprovado pelos telespectadores, pois conforme consta no próprio site da emissora, ficou em 1º lugar no ranking de audiência.

A adultificação da criança, estampada na mídia como um programa ou conduta comum, asseverando que os pequenos devem ter desempenho semelhante aos adultos, de forma velada, demonstra com clareza a influência da mídia no processo de perda da infância, assemelhando-se a cada dia com a figura do adulto.

A imposição de responsabilidades e intensa cobrança de desempenho garantem aos pequenos esgotamentos, ansiedade e um nível de stress que não condizem com a idade. De se registrar, isso não é exclusividade do Masterchef; o desespero infantil pode ser detectado em diversos outros reality show ou programas, como o recém lançado reality Pequenas Misses, que mostra a realidade dos concursos de beleza infantis. Nesse último, meninas de 02 anos já participam e sofrem, além da “adultificação” em roupas, unhas, cabelo e maquiagem, uma pressão completamente desproporcional para a idade.

No site Cinema Secreto, na matéria "MasterChef Júnior, a adultificação das crianças e o fim da vergonha”, é elaborado um esboço dinâmico sobre a influência da mídia na adultificação das crianças e a postura dos pais, conforme abaixo transcrito:

“Mas a celebridade tem um preço, como nos mostra MasterChef Júnior: ser um pequeno adulto (um chefe mirim que já enfrenta o desafio de criar um prato com barriga de porco e manipular facas) exige pagar a moeda de cumprir o princípio de desempenho – ser um modelo de pequeno adulto para o deleite dos próprios adultos que veem neles o conforto resignante de que a vida de diariamente correr contra o tempo sob a chibata de um chefe sempre foi assim e assim será para sempre.

Enquanto na primeira edição do programa os mini-chefes corriam contra o tempo esbaforidos, angustiados e segurando o choro, do mezanino as mães gritavam histéricas: “enxuga os olhos e vai!”, “Não chora!”... A educação pela dureza como modelo que legitima a própria vida dos adultos – as crianças passam por um jogo que é o microcosmo do futuro que lhes aguardam.

Esse tipo de pressão é prejudicial para o desenvolvimento infantil, justamente por não fazer parte do mundo das crianças, fazendo com que estas, portanto, não saibam lidar com isso, principalmente diante das frustrações, que podem gerar insegurança, baixas auto estima e auto confiança aos pequenos. É uma frustração, uma expectativa dos adultos – dos pais, no caso – que vão jogar sobre a criança aquilo que eles talvez um dia gostariam de terem realizado.”

No recorte acima colacionado verifica-se a exploração da imagem e emoção infantil, que poderá causar os mais variados transtornos emocionais, pois para um adulto em condições similares é comum o desencadeamento de alterações psicológicas, que dirá em uma criança ou adolescente, que se encontra em processo de desenvolvimento cognitivo.

Dessa forma, é evidentemente que o resultado da adultificação das crianças não é bom, tendo em vista a antecipação de situações que, numa condição natural de desenvolvimento, ocorreria em 07 ou 10 anos, e que tornam mais dramática a absorção de frustrações, derrotas ou, até mesmo, o sucesso.

Ressalta-se que atualmente as crianças e adolescentes possuem maiores atribuições escolares e busca pelo melhor desempenho nas mais variadas áreas, desde as inúmeras atividades esportivas até o as notas na escola, cuja carga de estudo ultrapassa a rotina dos pais de 08 horas de trabalho, sendo por vezes desconsiderado o lapso essencial para brincarem, atividade essencial para descobrirem o mundo, comunicarem e se inserirem no contexto que a envolve, correspondente a idade que possuem.

Neil Postam, em seu livro O Desaparecimento da Infância, afirma que a atualidade é marcada por mídias digitais, que dada a universalidade de acesso, torna indivisível a infância da fase adulta, conforme abaixo transcrito:

“A sociedade na atualidade é marcada pela presença da mídia eletrônica, sobretudo da televisão, que tem homogeneizado informações e entretenimentos ao público, caracterizando um novo tempo. As fronteiras que separavam um universo do outro, tão bem demarcadas pela prensa tipográfica, estariam desaparecendo e constata-se uma proximidade entre o mundo das crianças e o dos adultos. As diferenças são quase inexistentes! É possível notar a presença de crianças “adultizadas” e de adultos “infantilizados”, situação que permite indagar sobre a ocorrência de um processo de desaparecimento da infância.

Para Postman, a televisão destrói a linha divisória entre a infância e a idade adulta de três maneiras: primeiro, porque não requer treinamento para aprender sua forma de transmissão; segundo, porque não faz exigências complexas nem à mente nem ao comportamento; e terceiro, porque não segrega seu público”.

Postman aponta ainda que, “a televisão revela todos os segredos, torna público o que antes era privado, a criança de seis anos e o indivíduo de

sessenta estão aptos a vivenciar o que a televisão tem a lhes oferecer, suas imagens são concretas e auto explicativas, as crianças veem tudo o que ela mostra”.

Torna-se claro e evidente que a sociedade, sendo telespectadora de inúmeros canais televisivos e páginas sociais, passivamente assistem e contribuem com o processo de adultificação infantil, sendo omissa em seu dever de cuidado às crianças, que tem sofrido imposição de atribuições equiparadas aos adultos, sem qualquer orientação e amparo aos efeitos psíquicos e cognitivos que surgirão de forma colateral e danosa, com o decorrer dos tempos.

E em que pese à utilização da justificativa de que tudo está sendo realizado em prol da felicidade ou do futuro da criança, pois se trata do sonho da vida dela, deve-se analisar se trata do anseio genuíno infantil ou uma fachada, uma construção social que vem, sobretudo, de influência familiar e que pode gerar transtorno futuro.

Conclusão

Atualmente a adultificação infantil é uma prática comum e aceita pela sociedade, que impõe atribuições à criança e adolescente similares a um adulto, porém, sem considerar que não possuem desenvolvimento emocional e cognitivo para lidar com emoções relacionadas à perda, ganho, sucesso, vitória, rendimento ideal, pressão psicológica etc.

Subsuma-se que a sobrecarga de cobranças transferidas dos genitores e da sociedade para a geração envolvida na adultificação infantil trará resultados pouco animadores, tendo em vista a supressão da fase lúdica de desenvolvimento que fora suprimida.

Tem-se, portanto, que a adultificação gera desgaste, altos níveis de stress, ansiedade, problemas emocionais e afetivos, a depender das experiências impostas e danos sofridos, o que se mostra totalmente incongruente com o período de vida que deveria ser cercado de brincadeiras e do amparo familiar.

REFERÊNCIAS

ANDRADE, Lucimary Bernabé Pedrosa de . Educação infantil. Discurso, legislação e práticas institucionais. São Paulo: Editora UNESP: Cultura Acadêmica, 2010.

BEE, Helen. A criança em desenvolvimento. São Paulo. Harbra Editora Harper & Row do Brasil Ltda. 1977.

POSTMAN, Neil. O Desaparecimento da Infância. Tradução: Suzana Menescal de A. Carvalho e José Laurenio de Melo. Rio de Janeiro: Grafhia Editorial, 1999.

FERREIRA, W. R. V."MasterChef Júnior", a adultificação das crianças e o fim da vergonha. Disponível no site https://cinegnose.blogspot.com/2015/10/masterchef-junior-adultificacao-das.html#more. Acesso em 30/06/2018.

WALLON, Henri; GRATIOT-ALFANDÉRY, Hélène; tradução e organização: Patrícia Junqueira. Recife: Fundação Joaquim Nabuco, Editora Massangana, 2010.

WIGGERS, I. D.; ISABELLE, B.S.; PASSOS, E. R. A. P. A infância na era das mídias. Corporeidade em foco. Disponível no site http://www.revista.cbce.org.br/index.php/RBCE/article/viewFile/2124/1082. Acesso em 30/06/2018.

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